Criança com IVAS antes de procedimento com anestesia – como proceder? (ou não proceder?)

5 de agosto de 2019

Criança com IVAS antes de procedimento com anestesia – como proceder? (ou não proceder?)

  • É comum que pais procurem pediatras para aconselhar quando uma criança desenvolve uma infecção de via area superior (IVAS) antes de um procedimento que exige anestesia, devido ao receio de que o procedimento possa ser cancelado. Esse receio é bem justificado: IVAS constituem a causa mais comum de cancelamento de procedimento com anestesia em crianças, devido ao aumento do risco de eventos adversos respiratórios no período perioperatório – incluindo laringoespasmo, dessaturação/necessidade inesperada de suplementação de oxigênio no pós-operatório, que pode levar à admissão nao programada ou prolongada e ate mesmo admissão na unidade de terapia intensiva.
  • Historicamente, os anestesiologistas consideravam o período de aumento do risco desses risco de eventos adversos respiratórios como de até seis semanas após a resolução dos sintomas. No entanto, grandes estudo observacional na verdade esse período de risco aumentado é geralmente limitado a duas semanas*.
  • IVAS virais constituem o distúrbio infeccioso mais comum da infância, mas cada IVAS é diferente: algumas características da IVAS grave são especialmente preocupantes no pré-operatório: febre, tosse produtiva, secreção nasal espessa ou verde e mal-estar.
  • A pesquisa de vírus infeccioso não é feito rotineiramente em pacientes pediátricos com IVAS, porem se sabe que o vírus sincicial respiratório (VSR) e o virus influenza estao associados a maior risco de eventos adversos respiratórios em comparação com outras infecções virais, mesmo quando os sintomas de gravidade não estão presentes**.
  • A suspeita de infecção bacteriana, como uma faringite estreptocócica, pode levar ao atraso de alguns procedimentos mais importantes/invasivos, ate mesmo cirurgia cardíaca/cateterismo e implantes ortopédicos, devido ao risco associado ao risco de bacteremia.
  • Fatores de risco pré-operatórios adicionais relacionados ao risco de eventos respiratorios no contexto de IVAS atual ou recente incluem exposição passiva ao fumo, história de hiperresponsividade das vias aéreas, história de prematuridade ou preocupação dos pais de que a criança está excepcionalmente doente.
  • O risco de PRAE varia dependendo do tipo de cirurgia ou procedimento a ser executado, bem como o plano de anestesia.
  • O risco de eventos adversos respiratórios no período perioperatório em crianças sem IVAS sedadas para procedimentos não cirúrgicos é de 6,3%. Crianças com IVAS nas ultimas duas semanas, IVAS atual com secreções claras e IVAS atual com secreções espessas têm um risco de 9%, 15% e 22%, respectivamente.***.
  • Em crianças sem IVAS sedadas para procedimentos cirúrgicos, o risco é de 12% vs. 25-29% entre aqueles com IVAS atual ou recente (menos de duas semanas)*.
  • Para o pediatra  aconselhar no cuidado de uma criança com IVAS antes de um procedimento planejado, deve-se tomar em consideração: a historia de IVAS recorrentes, as consequencias familiares de reagendar o procedimento, o risco relativo de proceder vs. retardar o procedimento, a gravidade e a possivel natureza. causa da IVAS, e a natureza do procedimento. História e exame físico são necessários. Na suspeita de infecção bacteriana, ou de VSR ou influenza podem ser necessarios exames complementares. Hiperresponsividade de vias aéreas secundaria a IVAS pode exigir intervenção, como corticoesteróides ou broncodilatadores. O uso empirico esteróides ou antibióticos antes de um procedimento para reduzir o risco de cancelamento não é recomendado.
  •  A maioria das crianças com IVAS perioperatória pode ser anestesiada com segurança. No entanto, pediatra e anestesiologista devem trabalhar em paralelo para determinar se um paciente pode prosseguir com uma cirurgia eletiva.

 

REFERENCIA:

AAP news – https://www.aappublications.org/news/2019/07/31/focus073119?utm_source=MagMail&utm_medium=email&utm_term=natascha.sandy@hotmail.com&utm_content=oncall%20%2D%20august%205%2019&utm_campaign%AAP 20OnCall% 20% 2D% 20August% 205% 2C% 202019

* Von Ungern-Sternberg BS, et al. Lancet. 2010; 376: 773-783

** Spaeder MC, et al. BMC Anesthesiol. 2011; 11:16

*** Mallory MD, et al. Pediatrics. 2017; 140: e20170009