Dislipidemias na infância – Conceitos, valores de referência atuais e tratamento

24 de outubro de 2017

Dislipidemias na infância – Conceitos, valores de referência atuais e tratamento

 

– Um dos pontos fundamentais é lembrar que somente 30% dos lipídeos provém da dieta; 70% produção endógena – o que se relaciona a certa limitação da intervenção dietética e mesmo de algumas drogas.
– LDL é o principal fração relacionada a aterogênese.

– Valores de referência:
Aumentados: Colesterol total > 170, LDL > 130, TG > 130.
Desejável: Colesterol total < 150, LDL < 100, TG < 100, e HDL >/= 45.
(valores intermediários são considerados limítrofes).

– É importante lembrar que algumas doenças em pediatria pode determinar dislipidemia secundária, incluindo:
* Hipotiroidismo: aumento de colesterol total e triglicérides, diminuição de HDL.
* Síndrome nefrótica: aumento de colesterol total e triglicérides, diminuição de HDL.
* Insuficiência renal crônica: aumento de colesterol total e triglicérides, diminuição de HDL.
* DM: aumento de triglicérides.
* Obesidade: aumento de triglicérides e diminuição de HDL.
* Icterícia obstrutiva: aumento de colesterol total

¬- E ainda diferentes classes de drogas/ medicamentos podem alterar o perfil lipídico:
* Anticonvulsivantes: acido valpróico, carbamazepina
* Anti-hipertensivos: beta-bloqueadores, hidroclorotiazida, espironolactona
* esteroides sexuais: estrégenos, progestágenos.
* imunossupressores: ciclosporina, corticosteroides
* outros: AAS, ácido ascórbico, alopurinol, amiodarona, imibidores de protease.

– Outros fatores que podem determinar dislipidemia: álcool, tabagismo passivo, nutrição parenteral, dieta cetogênica, hemodiálise.

 

– Quando solicitar exames:
* A partir de 02 anos de idade se Antecedente Familiar (AF) positivo (ou história familiar desconhecida), presença de fatores de risco (obesidade, DM, HAS, Síndrome Nefrótica, HIV, lúpus), ou sinais clínicos de dislipidemia. AF é considerado positivo se doença cardiovascular precoce ou pais com colesterol total > 240.
* Triagem universal está recomendada para todas as crianças entre 09 e 11 anos. Se anormal, deve ser repetida em 03 meses. Se normal, pode ser repetida apenas entre 17 e 21 anos.

 

– Tratamento medicamentoso é formalmente indicado a partir de 08 anos quando:
* LDL persistentemente > 190
* LDL > 160 + fatores de risco
* LDL> 130 em criança com DM
– Em crianças menores de 08 anos: quando LDL >500.

– HDL > 90 também é aterogenico. Deve-se dosar apolipoproteína A.

 

– Colestiramina: Resina biliar (Questran®): atua na luz intestinal promovendo a ligação do colesterol aos sais biliares, facilitando sua eliminação. Dose de 4 a 20g/dia. Reduz LDL em 15 a 20%.
– Estatinas: atuam pela inibição da enzima HMG-COA redutase e aumento dos receptores de LDL: lovastatina, sinvastatina, pravastatina, fluvastatina, atorvastatina e cerivastatina,… Efeitos adversos incluem elevação de transaminases e CPK, mialgia (relativamente comum em pediatria), randomiólise, teratogenicidade. Reduzem o colesterol em torno de 30%, e aumentam muito discretamente o DHL (5%). A pravastatina é a mais estudada em pediatria: na dose de 10 a 20 mg/dia.
– Ezetimibe: pode ser usado a partir de 05 anos de idade. Inibidor da absorção de colesterol, em geral utilizado em associação à estatina. Dose de 10 mg/dia

 

– Tratamentos alternativos:
* Fitosterol baixa o LDL em torno de 10% .
* Fibra solúvel tem possível papel terapêutico, modesto.
* Benefício do ômega 3 não foi comprovado em relação a diminuir colesterol ou triglicérides.

 

– Hipercolesterolemia familiar é dislipidemia primária grave que ocorre em 1 para cada 300 a 500. Somente 20% realizam diagnóstico precoce. LDL persistentemente acima de 160. 2 parentes de primeiro grau com LDL elevado. Herança autossômica dominante. 90% por mutação no gene receptor do LDL.
Forma heterozigota: colesterol de 350 a 550, DCV antes dos 50 anos.
Homozigoto: CT 600-1000, DCV antes dos 20 anos.
– Há diversas outras dislipidemias primárias/familiares que podem cursar com aumento exagerado de diferentes frações de colesterol ou aumento de triglicérides com risco de pancreatite recorrente (iperquilomicronemia familiar). Hiperlipidemia familial combinada ocorre em até 1-2% da população, cursando com VLDL muito elevado.