Gastroparesia

1 de novembro de 2020

Gastroparesia

  • A gastroparesia é caracterizada por retardo do esvaziamento gástrico na ausência de obstrução mecânica. Manifesta-se com saciedade precoce, dor abdominal, distensão abdominal, náuseas e vômitos, anorexia,  e pode levar a perda de peso significativa.
  • A epidemiologia da gastroparesia ainda não está bem definida, sobretudo em pediatria. Dados de adultos reportados estimam uma frequencia de  9,6 para homens e 37,8 para mulheres por 100.000 habitantes, portanto acometendo mais o sexo feminino na população adulta. Um grande coorte retrospectiva revelou uma distribuição global quase igual entre gêneros  em pediatria, com uma diferença crescente com a idade, de modo que em pacientes com mais de 17 anos, quase 2/3 eram mulheres. Em outro estudo retrospectivo, a idade média de início da gastroparesia em pediatria foi de 9 anos.

.

  • Parte da dificuldade de saber a epidemiologia advem de dificuldades em estabelecer o diagnostico.
  • Gastroenterologistas adultos usam vários testes para diagnosticar essa condição, e nenhum deles é completamente satisfatório. Todos os exames disponíveis apresentam limitações, ainda mais pronunciadas em pacientes pediátricos, pois não foram estabelecidos valores de normalidade para crianças.
  • Para o estudo de esvaziamento gástrico de medicina nuclear, as diretrizes de consenso de adultos recomendam que o paciente em jejum ingira uma refeição de clara de ovo padrão, radiomarcada, com baixo teor de gordura e, em seguida, faça exames de imagem 1, 2 e 4 horas após a ingestão. Essas diretrizes baseiam-se nos resultados após a ingestão de uma refeição de 255 kcal com 72% de carboidratos, 24% de proteína, 2% de gordura e 2% de fibra.  O esvaziamento gástrico retardado em adultos é geralmente definido como retenção de refeição superior a 60% em 2 horas ou superior a 10% em 4 horas.
  • De uma forma geral o teste com maior probabilidade de dar um resultado interpretável é o estudo do esvaziamento gástrico de medicina nuclear. Usar padrões de esvaziamento gástrico adulto em adolescentes parece ser uma estrategia razoável. Mas não há recomendações de consenso para a interpretação desse teste em pacientes pediátricos. Um estudo pediátrico reportou preocupações sobre o uso desse teste padronizado em pediatria, porque as crianças (especialmente crianças menores) muitas vezes não conseguiam terminar a refeição de teste.
  • Algumas vezes resultados relatam “o tempo de semi-esvaziamento” de uma refeição, que é o tempo necessário para o estômago esvaziar 50% da refeição ingerida. A partir desta medição, outros parâmetros são matematicamente extrapolados. Essa extrapolação é menos precisa do que as medidas reais de retenção ou eliminação em pontos de tempo específicos, e é melhor evitar o uso de tempos de meio-esvaziamento.
  • Todos os medicamentos que podem ter um impacto negativo ou positivo na motilidade gastrointestinal devem ser interrompidos por 2 dias antes do exame.
  • Menos disponivel, teste respiratorio realizado com um isótopo 13C não radioativo estável ligado a uma substância digerível e então misturado em uma refeição sólida ou líquida pode tambem ser usado no diagnostico, e funciona com uma logica mais ou menos semelhante a da cintilografia. A refeição é ingerida e, em seguida, o isótopo é absorvido pelo intestino delgado e, posteriormente, metabolizado em 13C-CO2 que é exalado e coletado. A razão 13CO2 / 12CO2 na expiração é usada para avaliar o tempo de esvaziamento gastrico. O teste tem a vantagem de não expor o paciente à radiação, mas é pouco disponivel, tem o mesmo problema de falta de padronização de resultados em pediatria, e ainda ser impreciso em pacientes com condições específicas incluindo doença celíaca e cirrose hepática
  • A manometria antroduodenal se realizada pode mostrar um  hipomotilidade antral pós-prandial na gastroparesia, mas trata-se de um achado bastante inespecífico, que não permite confirmar o diagnóstico de gastroparesia. Trata-se de um exame pouco disponivel, raramente usado em gastroparesia, tendo como principal indicação a pseudo-obstrução intestinal crônica.

.

  • Vírus implicados como causas de gastroparesia pós-infecciosa incluem CMV, EBV, rota. Embora o mecanismo exato da gastroparesia pós-infecciosa seja vago, parece que o agente infectante causa neuropatia por dano direto dos gânglios autonômicos ou por efeito indireto sobre os neurônios por meio de uma resposta imunológica ou inflamatória à infecção. O quadro pos-viral geralmente é autolimitado, mas pode se estender até 24 meses
  • Outra causa listada de gastroparesia seria cirurgia em abdome superior (por exemplo, fundoplicatura) ou torax, que podem cursar com lesão do nervo vagal levando a contrações antrais reduzidas e espasticidade pilórica. E ainda transplante de pulmão e coração são seguidos de imunossupressão, que se associam a um risco aumentado de infecções virais oportunistas
  • Finalmente, crianças com doenças neurológicas estão tambem em risco aumento de gastroparesia, possivelmente devido à função anormal do sistema nervoso central e entérico

.

  • Recomendações dietéticas no manejo incluem: refeições pequenas e frequentes, com baixo teor de gordura e fibras não digeríveis; evitar bebidas com gas, e evitar deitar por 1 a 2 horas após as refeições.
  • Pacientes com gastroparesia pós-viral parece responder melhor aos agentes de “pro-motilidade”, assim como paciente com curta duração dos sintomas antes de procurarem atendimento apresentaram maior probabilidade de resolução após um período médio de 14 meses.
  • Drogas procineticas usadas incluem: metoclopramida, domperidona, eritromicina, e cisaprida são usados com taxa de resposta. Todas tem questoes de possiveis efeitos colaterais. Não devem ser combinadas. Cisaprida parece ser a mais efetiva, porem tambem a quem o pior potencial efeito colateral (prolongamento de QT com risco de arritmias ventriculares) – não disponivel no Brasil (retirada do mercado).
  • Mitocondriopatias marcam pior prognóstico.

 

Referencia: 

Saliakellis E, Fotoulaki M. Gastroparesis in children. Ann Gastroenterol. 2013;26(3):204-211.

————————————————————————————————————————

“DISCLAIMER”/ aviso legal: o objetivo dessa página é compartilhar conhecimento médico, visando um público alvo de médicos, pediatras, gastroenterologistas pediátricos, estudantes de medicina. Os conteúdos refletem o conhecimento do tempo da publicação e estão sujeitos a interpretação da autora em temas que permanecem controversos.
A linguagem é composta de linguagem/jargões médicos, uma vez que não visa o público de pacientes ou pais de pacientes. O conteúdo dessa página não pode nem deve substituir uma consulta médica.
As indicações e posologia de medicamentos podem mudar com o tempo, assim como algumas apresentações ou drogas podem ser retiradas do mercado.
Em caso de dúvida relacionada ao conteúdo ou se algum dado incorreto foi identificado, entre em contato!