Preceitos da alimentação do pré-escolar

27 de setembro de 2018

Preceitos da alimentação do pré-escolar

– Para que a alimentação depois 02 anos ocorra com menor número de dificuldades é fundamental que a alimentação no período que antecede a este tenha sido também adequada: preferencialmente aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida, seguido da introdução de alimentos complementares dentro dos períodos e preceitos preconizados.

– Trata-se de um período crítico porque a criança sai da fase de dependência dos pais e começa a ter independência e tentar controlar os pais.

– Período de importante maturação óssea (alimentação inadequada prejudica estoque corporal de cálcio), e de risco de transtornos do desenvolvimento e comportamentais.

– Ao mesmo tempo em que há grande vulnerabilidade de distúrbios nutricionais na faixa etária, também há desaceleração natural do ritmo de crescimento, ritmo de ganho de peso e consequente diminuição das necessidades nutricionais e do apetite. O ritmo de crescimento é significantemente menor que nos primeiros 02 anos de vida: ganho de peso de 2-3kg/ano, e de estatura de 5-7 cm/ano.

– É muito comum a queixa parental de que a criança come pouco ou “nada”, e a família muitas vezes atribui a redução fisiológica na ingestão alimentar (relacionada a redução fisiológica do ritmo de crescimento) à presença de alguma doença e/ou busca recursos artificiais para o aumento do apetite: daí surgem diagnósticos errôneos de anorexia, uso inadequado de medicamentos e suplementos alimentares.

– Deve-se estar atento ao fato de que a inapetência pode estar relacionada ao consumo de calorias “vazias” e ao fato de que nessa idade a criança está muito ligada no brincar. É fundamental que se estabeleça uma rotina alimentar. Os pais não devem atender ao desejo da criança de comer doces e guloseimas como “ultimo recurso” pelo desespero da criança “não comer nada” – isso apenas alimenta um ciclo vicioso ruim. Deve-se ter em mente que a indicação de suplementos deve ser exceção: crianças sem doença de base que aumente o catabolismo ou gasto energético, via de regra, não necessitam suplemento.

– Suplementos não são necessariamente bons alimentos! Deve-se ter em mente uma forte pressão da indústria para a comercialização destes, e deve-se lembrar que enquanto dietas enterais, produzidas pelas mesma industrias, muitas vezes não são palatáveis, o suplementos alimentares tem a adição artificial de açúcares e xaropes para melhorar o gosto e sucesso nas vendas.

– Pais devem ser educadores e fazerem as escolhas relacionadas a alimentação. A criança tem certa autonomia, mas não sabe fazer boas escolhas alimentares: pode fazer pequenas escolhas dentro de um contexto controlado. Isso não significa que a criança não pode rejeitar alguns alimentos – certas preferências devem ser sim respeitadas.

– Aos 03 anos: em geral primeira dentição completa, criança deve ser exposta a alimentos diversificados, de diferentes texturas, fundamentais para estimulo da mastigação e musculatura do rosto. Criança precisa comer alimentos inteiros e  alimentos crus: criança deve ser exposta ao preparo dos alimentos e não apenas comer alimentos prontos, processados, sopas, purês.

– O comportamento alimentar da criança de 02 a 06 anos é completamente imprevisível! Um alimento adorado em um dia, pode ser rejeitado no dia seguinte e posteriormente voltar a ser aceito. Há também importante variabilidade/oscilação na quantidade aceita. Há muita suscetibilidade a estímulos ambientais: daí a importância de não expor a televisão ou outros eletrônicos – criança deve estar atenta a comida e a família. A preferência pelo sabor doce é inata: deve-se oferecer a fruta inteira como sobremesa, não na forma de suco. Porções aceitas em geral são pequenas: com melhor aceitação, melhor servir quantidade pequena, que a criança encara mais fácil, e se quiser repete (a criança aprecia a autonomia/poder de decidir repetir) do que servir uma grande quantidade que assusta e desanima já inicialmente a criança. Deve-se ter em mente também que crianças comem melhor em grupo – não é incomum a queixa de que a criança come bem na escola ou creche mas não come bem em casa.

– Neofobia: criança não quer o alimento novo. Pode muitas vezes ser superada pela alteração da forma de apresentação do mesmo alimento.

– Restrição alimentar muito extensa pode levar a desnutrição e déficits de micronutrientes específicos, com consequente atraso do desenvolvimento e prejuízo na aprendizagem, anemia, excesso de peso por consumo de outros alimentos calóricos que substituem alimentos saudáveis.

– Uso de chupeta e mamadeira deve ser descontinuado após os 02 anos de idade.

– No cenário da seletividade: observar que exposição frequente do mesmo preparo não melhora aceitação. Alimentos devem ser oferecidos separadamente, e não “escondidos”, mas pode-se mudar o tempero para ver se isso aumenta a aceitação. Ter em mente que deve-se realizar 08 a 10 exposições para reconhecimento e aceitação de um novo alimento. Repeitar o tempo de adaptação a novos alimentos. Evitar punição física e mesmo “recompensas” para aceitação de um alimento.

– Curvas de crescimento vão ditar se comportamento alimentar em relação a quantidade está inadequado ou não, mesmo que a expectativa dos pais não esteja sendo atendida. No caso de anorexia simples: tranquilizar os pais em relação a se tratar de uma mudança fisiológica do apetite nessa fase da vida. Pais devem ser orientados que alterações do comportamento alimentar são transitórias. Ajuda: mudar o “visual” da comida (enfeite, desenho, separa comidas). Comportamentos impróprios tem que ser corrigidos. Família tem que comer o que está pedindo para comer, dentro de uma rotina/ horários. Autorregulação do apetite tem que ser repeitada. Tempo de permanência a mesa deve ser de 20-30 minutos. Idealmente criança deve ser “desecelerada” antes da refeição: se preparar para sentar a mesa. Refeições não devem ser substituídas por líquidos (sucos, vitaminas ou suplementos).  Tamanho da porção deve ser apropriado para idade e criança não deve ser obrigada a “raspar o prato”.

– Líquidos: nos intervalos das refeições deve ser oferecido preferencialmente água. O consumo de sucos deve ser bastante restrito.

Veja as recomendações em: https://novapediatria.com.br/ingestao-de-sucos-novas-recomendacoes-da-aap/

– Envolver a criança  na compras, preparo e escolha dos alimentos é benéfico.

– Nas preparações cadeiras: cuidado com o excesso de óleos e sal, carnes devem ser já preparadas sem pele/gordura.

– Consumo de leite deve ser idealmente maior que 500 ml/dia, mas menor que 700 mL.

– Tempo de tela deve ser restrito a 2 horas por dia, incluindo TV, eletrônicos, e videogames.