Síndrome de Hiperêmese Canabinóide

30 de junho de 2020

Síndrome de Hiperêmese Canabinóide

 

  • A apresentação tipica de Síndrome de Hiperêmese Canabinóide é de adolescente que apresenta sintomas de náusea, vômito repetitivo, dor abdominal e perda de peso, com historia de tomar banho quente compulsivamente para alivio dos sintomas. Muitas vezes esses pacientes são submetidos a avaliação complementar extensa antes que seja descoberto o problema de uso de canabinóide. Tipicamente ha atraso  do tempo de esvaziamento gástrico.  Na suspeita da Síndrome de Hiperêmese Canabinóide e na ausência de uma história clara do paciente, deve-se considerar a triagem toxicológica na urina para o tetra-hidrocanabinol.
  • A síndrome  foi descrita pela primeira vez em 2004 e, desde então, muitos relatos de casos descreveram uma constelação comum de sintomas associados ao uso excessivo e prolongado de cannabis. Na apresentação são comuns episódios graves e repetitivos de emese que podem se assemelhar à síndrome do vômito cíclico. Também podem haver dores abdominais em cólica e a historia de banhos quentes freqüentes. O banho quente compulsivo é considerado patognomônico por alguns autores,sendo descrito em 98% dos casos relatados. Os sintomas desaparecem após a interrupção do uso de maconha.
  • Os novos critérios de Roma IV incluem Síndrome de Hiperêmese Canabinóide entre os “distúrbios da interação intestino-cérebro”, anteriormente designados “distúrbios gastrointestinais funcionais”. A definição inclui distúrbios gastrointestinais relacionados a qualquer combinação de dismotilidade intestinal, hipersensibilidade visceral, respostas imunes anormais, microbiota intestinal desregulada e função do sistema nervoso central.
  • Embora a patogênese da Síndrome de Hiperêmese Canabinóide não seja clara, vários mecanismos para esse efeito tóxico do tetra-hidrocanabinol (THC) foram sugeridos. A cannabis atua nos receptores CB1 e CB2 no sistema nervoso central e entérico, e parecer ser um agonista dos receptores CB1. A estimulação desses receptores inibe a liberação de neurotransmissores eméticos, impedindo o vômito. Este efeito antiemético do THC dificulta a compreensão do mecanismo da hiperemese na CHS. Foi sugerido que a meia-vida longa dos componentes da cannabis que se acumulam no cérebro com o uso a longo prazo e em altas doses pode regular negativamente os receptores canabinóides. Os receptores CB1 reduzidos podem fazer com que o THC tenha uma ação antagonista. Os receptores CB1 também exercem um efeito neuromodulador no intestino, onde a estimulação por canabinóides retarda o esvaziamento gástrico e o peristaltismo. Além disso, os receptores CB1 são encontrados próximo ao centro termorregulador do hipotálamo, o que poderia explicar o banho quente compulsivo observado nessa síndrome. Outros postulam que o banho quente pode induzir o alívio dos sintomas, causando vasodilatação esplâncnica.
  • Pacientes com Síndrome de Hiperêmese Canabinóide podem apresentar-se repetidamente em pronto-atendimentos com as principais queixas de náuseas e vômitos intratáveis. Em geral, passam por várias avaliações médicas e podem ser hospitalizados para tratamento dos sintomas. Pode haver atraso significativo no diagnóstico devido à relutância em discutir o uso de maconha. A terapia mais eficaz para a Síndrome de Hiperêmese Canabinóide é a cessação do uso de cannabis. Na fase inicial de atendimento de uma “crise”, os cuidados de suporte com fluidos intravenosos e a prevenção de opiáceos e outras drogas recreativas podem ajudar. Outros tratamentos que foram descritos em estudos de caso para minimizar os sintomas incluem a aplicação de creme de capsaicina na pele abdominal para inibir o processamento aferente.

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REFERENCIAS

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  • Singh P, Yoon SS, Kuo B. Nausea: a review of pathophysiology and therapeutics. Ther Adv Gastroenterol. 2016;9(1):98-112. doi:10.1177/1756283X15618131
  • Sorensen CJ, DeSanto K, Borgelt L, Phillips KT, Monte AA. Cannabinoid hyperemesis syndrome: diagnosis, pathophysiology, and treatment: a systematic review. J Med Toxicol. 2017;13:71-87. doi:10.1007/s13181-016-0595-z

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